Uma adolescente, um caderno e uma amiga chamada Kitty
Muita gente chega ao Diário de Anne Frank esperando uma menina exemplar, dessas de citação de rede social. O que aparece é outra coisa: uma garota de treze anos que ganha um caderno de aniversário em junho de 1942 e decide que ele vai ser uma amiga. Ela dá até nome à amiga, Kitty, e isso muda o livro, porque o diário deixa de ser registro e vira conversa. Anne fofoca e reclama, e por isso a gente acredita nela quando o assunto fica sério.
E o assunto fica sério pelo miúdo. Em julho de 1943, o armazém embaixo do esconderijo é arrombado e levam boa parte da comida, quando as refeições já andavam mais magras. Enquanto isso, o Dussel, o dentista que divide o quarto com Anne, guarda um estoque só pra si. Oito pessoas escondidas, e o desgaste não vem só da polícia lá fora, vem da mesa lá dentro. O medo aqui é convivência, não cena de filme, e é isso que dá peso ao resto.
Aí entra o Peter, de quem Anne não gostava quando chegou ao esconderijo. No começo de 1944, ela passa a visitar Peter van Daan no quarto dele, e as conversas viram rotina. O livro não trata isso como romance de folhetim: ela escreve sobre o corpo que muda e sobre o que sente. E aqui está a limitação mais concreta da obra. Ao preparar a edição de 1947, Otto Frank tirou passagens que considerou privadas. A primeira edição brasileira, de 1950, veio do inglês; hoje há traduções direto do holandês, como a da Paulus, de 2025, baseada na versão B. Dependendo da edição, lemos uma Anne mais recortada.
O momento que mais me faz pensar é março de 1944. Anne ouve um apelo no rádio holandês, transmitido do exílio, pedindo que as pessoas guardassem diários da guerra, e começa a reescrever o que já tinha, pensando em publicar depois. É a versão que os pesquisadores chamam de B. No mesmo mês, ela olha pra trás e conclui que amadureceu, que era uma criança boba antes do esconderijo. Dá pra discordar do diagnóstico, mas ela relê o próprio texto e se corrige, e é por isso que um diário de adolescente aguenta ser lido como literatura. O custo é que parte do que lemos já é uma Anne pensando na plateia. E só temos o olhar dela: a mãe, o Dussel, a Sra. van Daan chegam filtrados por uma adolescente irritada num espaço minúsculo.
O diário termina em 1º de agosto de 1944. Três dias depois, a família é presa. Anne morre de tifo em Bergen-Belsen, no começo de 1945, poucos dias depois da irmã, Margot. Miep Gies e Bep Voskuijl encontram os papéis espalhados no anexo e os guardam; Otto, único sobrevivente da família, acaba publicando. O que fica pra mim não é uma frase bonita. É que o livro me tirou o hábito de usar Anne como símbolo. Ela implicava com o dentista, se interessou pelo garoto da outra família e planejava publicar um livro. Quando o texto para, o que pesa é a falta dessa pessoa específica.
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