Quando o valor de alguém se resume à sua utilidade
O que me fascina neste livro e me faz retornar para uma nova leitura são as dinâmicas familiares. Gregor é caixeiro-viajante e detesta imensamente o trabalho que exerce, assim como a vida que leva. Mais relevante do que os intensos sentimentos de aversão que Gregor experimenta é a questão do que a personalidade de Gregor representa para os demais. Sua única razão para levantar todo dia e ir para o trabalho é manter a família com as contas pagas; ele acorda com medo de ser um inseto gigante pelo pânico que causaria no serviço e no chefe.
É interessante observar as relações do personagem principal com sua irmãzinha Grete. Embora inicialmente ela seja o único membro compreensivo da família disposto a ajudar, essa atitude muda drasticamente quando ela e a mãe de Gregor decidem jogar fora os móveis do quarto porque ele ocupa todo o espaço. Gregor tenta impedir a mãe e joga especificamente um quadro com a foto de uma mulher nua, de costas, vestindo um longo manto cinza. O quadro foi jogado no chão, e levou a mãe de Gregor a desmaiar. É preciso dizer que, após esses incidentes, os sentimentos de Grete contra o comportamento de Gregor mudam, levando-a a pedir explicitamente às pessoas próximas que se livrem dele... ela nem sequer consegue chamá-lo de irmão.
Outro momento memorável dessa história, nos meus olhos, é quando as pessoas próximas se recusam a aceitar qualquer manifestação de humanidade vinda de Gregor, o capítulo em que o pai lança maçãs contra ele e uma delas fica presa na casca. Kafka deixa a situação descrita como ela é, sem tentar romantizar a dor dos insetos, o que faz com que o leitor se pergunte por que deveria se importar com esse inseto que mal consegue realizar suas tarefas diárias e mantém um humor cinzento o tempo todo.
No entanto, minha única ressalva com o livro é que os personagens secundários, como: o representante comercial, o pai e a mãe, aparecem como caricaturas e permanecem nesse papel durante toda a história. Particularmente no decorrer dos eventos posteriores aos incidentes causados por Gregor, os outros membros da família de Gregor (principalmente o pai) ficam por conta própria, deixando de lado os sentimentos genuínos que alimentavam enquanto Gregor ainda os mantinha. De modo geral, a descrição fraca dessas pessoas tornou o segundo romance, com suas perspectivas aprimoradas sobre as relações humanas, decepcionantemente frio, embora não possa ser ignorada como uma característica intencional da história.
Portanto, a moral desta história é que o valor fundamental de uma pessoa reside em sua utilidade para outra pessoa. Consequentemente, ela muda imediatamente quando aquela pessoa deixa de cumprir suas tarefas e obrigações. O epílogo do livreto, que mostra a família de Gregor indo para um bairro suburbano, com seus membros antigos (com exceção da irmã de Gregor) desejando felicidade e mais felicidades a Gregor, ele se alegra principalmente com a ideia de que Grete agora é independente da sociedade burguesa e tem oportunidades melhores na vida.