sábado, 26 de setembro de 2026

A Metamorfose



Quando o valor de alguém se resume à sua utilidade


Kafka escreveu a novela em apenas três semanas, entre 17 de novembro e 7 de dezembro de 1912, mas ela só foi publicada quase três anos depois, em outubro de 1915, na revista alemã de Leipzig. Depois, foi reeditada em brochura pela editora de Kurt Wolff, sendo republicada mais duas vezes, em 1918, o que é algo raro no caso de Kafka. Logo de cara, na primeira linha do livro, está dado o recado: Gregor Samsa desperta numa bela manhã transformado num inseto, e ao longo do livro, não há qualquer explicação para esse evento, seria basicamente nisso que eu me agarro desde a primeira leitura. No fim das contas, Kafka trata a mudança de Gregor Samsa como um fato normal. Ele conta tudo de um jeito tão frio e direto que a história fica ainda mais marcante.

O que me fascina neste livro e me faz retornar para uma nova leitura são as dinâmicas familiares. Gregor é caixeiro-viajante e detesta imensamente o trabalho que exerce, assim como a vida que leva. Mais relevante do que os intensos sentimentos de aversão que Gregor experimenta é a questão do que a personalidade de Gregor representa para os demais. Sua única razão para levantar todo dia e ir para o trabalho é manter a família com as contas pagas; ele acorda com medo de ser um inseto gigante pelo pânico que causaria no serviço e no chefe.

É interessante observar as relações do personagem principal com sua irmãzinha Grete. Embora inicialmente ela seja o único membro compreensivo da família disposto a ajudar, essa atitude muda drasticamente quando ela e a mãe de Gregor decidem jogar fora os móveis do quarto porque ele ocupa todo o espaço. Gregor tenta impedir a mãe e joga especificamente um quadro com a foto de uma mulher nua, de costas, vestindo um longo manto cinza. O quadro foi jogado no chão, e levou a mãe de Gregor a desmaiar. É preciso dizer que, após esses incidentes, os sentimentos de Grete contra o comportamento de Gregor mudam, levando-a a pedir explicitamente às pessoas próximas que se livrem dele... ela nem sequer consegue chamá-lo de irmão.

Outro momento memorável dessa história, nos meus olhos, é quando as pessoas próximas se recusam a aceitar qualquer manifestação de humanidade vinda de Gregor, o capítulo em que o pai lança maçãs contra ele e uma delas fica presa na casca. Kafka deixa a situação descrita como ela é, sem tentar romantizar a dor dos insetos, o que faz com que o leitor se pergunte por que deveria se importar com esse inseto que mal consegue realizar suas tarefas diárias e mantém um humor cinzento o tempo todo.

No entanto, minha única ressalva com o livro é que os personagens secundários, como: o representante comercial, o pai e a mãe, aparecem como caricaturas e permanecem nesse papel durante toda a história. Particularmente no decorrer dos eventos posteriores aos incidentes causados por Gregor, os outros membros da família de Gregor (principalmente o pai) ficam por conta própria, deixando de lado os sentimentos genuínos que alimentavam enquanto Gregor ainda os mantinha. De modo geral, a descrição fraca dessas pessoas tornou o segundo romance, com suas perspectivas aprimoradas sobre as relações humanas, decepcionantemente frio, embora não possa ser ignorada como uma característica intencional da história.

Portanto, a moral desta história é que o valor fundamental de uma pessoa reside em sua utilidade para outra pessoa. Consequentemente, ela muda imediatamente quando aquela pessoa deixa de cumprir suas tarefas e obrigações. O epílogo do livreto, que mostra a família de Gregor indo para um bairro suburbano, com seus membros antigos (com exceção da irmã de Gregor) desejando felicidade e mais felicidades a Gregor, ele se alegra principalmente com a ideia de que Grete agora é independente da sociedade burguesa e tem oportunidades melhores na vida.


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